(Foto:AP PHoto) 18/08/2020 em Kati no Mali
"Esta manhã, soldados furiosos pegaram em armas no acampamento Kati e dispararam para o ar. Eles eram numerosos e muito nervosos", disse um médico do Hospital Kati.
No final do dia, os amotinados anunciaram a prisão do presidente Ibrahim Boubacar Keïta e do primeiro-ministro Boubou Cissé.Toda a área foi isolada por militares. "Estamos monitorando a situação de perto. A hierarquia entrou em contato com as tropas", disse à AFP uma fonte do Ministério da Defesa. O governo malinês pediu aos amotinados que "silenciassem as armas", dizendo que estava pronto para engajá-los em um "diálogo fraterno para esclarecer quaisquer mal-entendidos". Mais tarde o presidente do país fez uma transmissão pela Televisão estatal e anunciou sua renuncia enquanto estava cercado por militares armados. Os militares que impuseram o golpe anunciaram a criação da "Comissão Nacional para a Salvação do povo".
A França, que colonizou o país até 1960, condenou "nos termos mais fortes o motim que começou hoje em Kati". O francês Emmanuel Macron, se reuniu com o presidente Ibrahim Boubacar Keïta e seus homólogos do Níger Mahamadou Issoufou, marfinense, Alassane Ouattara e o senegalês Macky Sall. Cerca de 5.100 militares franceses estão na região de Sahel, incluindo no Mali, como parte da operação anti-jihadista "Barkhane". O enviado dos EUA para o Sahel, Peter Pham, disse: "Os Estados Unidos se opõem a qualquer mudança inconstitucional de governo."
Panorama
Mali é um país semipresidencialista da África Ocidental com cerca de 18 milhões de habitantes. Ele é o sétimo maior país da África, em território. Em 1968, Madibo Keita, então líder do país foi deposto por um golpe militar, nos anos 1970 houve outras tentativas de golpes, em 1991 um novo golpe ocorreu, em 2002 o general Amadou Toumani Touré fez um novo golpe de estado e em 2012 a situação repetiu-se.
Desde o início de junho, uma coalizão de líderes religiosos, políticos e da sociedade civil, o Movimento das Forças Patrióticas do Mali (M5-RFP), pediu a saída de Ibrahim Boubacar Keïta, eleito em 2013 e reeleito em 2018 por cinco anos. É o conservador Mahmoud Dicko que parece estar liderando o movimento. O protesto começou no final de março, quando o líder da oposição foi sequestrado no meio da campanha legislativa. A raiva foi potencializada em 29 de março, quando o Tribunal Constitucional reverteu o resultado de cerca de 30 distritos eleitorais. Em 10 de julho, uma manifestação pedida pelo Movimento de 5 de Junho, marcado pela "desobediência civil", resultou em ataques ao Parlamento e à televisão nacional, e em três dias de protestos civis.
A oposição diz que 23 pessoas foram mortas e mais de 150 feridas. O primeiro-ministro fala de onze mortos e da ONU 14 manifestantes mortos. Em 18 de julho, o protesto rejeitou um compromisso proposto por uma mediação da África Ocidental.
No dia 27, os líderes da Comunidade dos Estados da África Ocidental convocaram os malianos à "união sagrada". A organização ameaçou sanções contra aqueles que se opõem ao seu plano de acabar com a crise, que prevê a continuidade do governo do presidente Keïta, mas defende um governo de unidade e eleições legislativas parciais. Em 17 de agosto, a oposição anunciou novas manifestações pedindo a saída do presidente e prometeu ocupar um lugar simbólico no coração de Bamako.


