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Sob ameaça do Kremlin, Bélgica trava transferência de ativos da Rússia para a Ucrânia

Sob ameaça do Kremlin, Bélgica trava transferência de ativos da Rússia para a Ucrânia

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Em um esforço diplomático de última hora, líderes europeus reúnem-se nesta semana para tentar desbloquear cerca de 210 bilhões de euros (R$ 1,2 trilhão) em ativos russos congelados. O montante é considerado a última tábua de salvação para a Ucrânia, mas a decisão esbarra na resistência do premiê da Bélgica, Bart De Wever, país que custodia a maior parte desses recursos.

De Wever, um nacionalista flamengo que ascendeu ao poder em fevereiro, tornou-se o alvo principal de uma campanha de intimidação russa. Em entrevista a um jornal belga, o premiê revelou ter recebido ameaças diretas do Kremlin.

"Quem acredita que Putin aceitará passivamente o confisco de ativos russos? Moscou deixou claro que, se o confisco acontecer, a Bélgica e eu pessoalmente sentiremos as consequências pela eternidade. Isso parece um tempo bastante longo", declarou De Wever.

O impasse ocorre em um momento crítico. Com a administração do presidente Donald Trump interrompendo o fluxo de novos fundos para Kiev e a economia pesando sobre os contribuintes europeus, o plano de usar os ativos russos como garantia para empréstimos à Ucrânia tornou-se urgente.





RISCO DE COLAPSO

A cúpula dos 27 líderes da União Europeia (UE), marcada para esta quinta-feira (19), é vista como um teste de fogo para a coesão do bloco. O chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, foi enfático sobre os riscos de um fracasso.

"Não nos enganemos. Se não tivermos sucesso nisso, a capacidade de ação da União Europeia será severamente prejudicada por anos", afirmou Merz nesta semana. "Mostraremos ao mundo que, em um momento tão crucial da nossa história, somos incapazes de nos manter unidos."

Para analistas, o cenário é sombrio. Nathalie Tocci, chefe do Instituto de Assuntos Internacionais da Itália, alerta que o fracasso do plano significaria o fim do suporte econômico e militar à Ucrânia até 2026, abrindo "a porta da frente para que a guerra se espalhe para outros países europeus".

Enquanto Bruxelas debate, Moscou age. Oficiais de segurança europeus apontam para uma campanha de desestabilização orquestrada pela Rússia. O ex-presidente russo Dmitry Medvedev chegou a ameaçar que a Bélgica poderia "desaparecer" caso a Rússia testasse seu drone subaquático Poseidon, com capacidade nuclear.

Incursões de drones forçaram o fechamento de aeroportos em toda a Europa no mês passado. Apenas nos primeiros dez dias de novembro, a Bélgica relatou mais de uma dúzia de incidentes envolvendo drones sobre bases militares e uma usina nuclear. O General Frederik Vansina, chefe da defesa belga, alertou que o país é "o foco de uma crescente ameaça híbrida".

SOMBRA DE WASHINGTON

Além da pressão russa, a Europa enfrenta a complexidade da nova política externa estadunidense. O enviado especial dos Estados Unidos, Steve Witkoff, propôs um plano de paz que utilizaria R$ 500 bilhões desses ativos em UM reconstrução liderados pelos estadunidenses, levantando suspeitas em Bruxelas de que Washington quer controlar o dinheiro.

"A Rússia não está apenas tentando intimidar, mas também tentando fazer a Casa Branca pensar que pode colocar as mãos nesse dinheiro", disse um ex-banqueiro ocidental vivendo em Moscou.

Internamente, a UE vê suas fissuras expostas. De Wever tem chamado o uso dos ativos de "roubo", ecoando a retórica do Kremlin, e mantém uma postura cética sobre a vitória ucraniana, chamando-a de "conto de fadas". A hesitação encontra eco na Itália, da premiê aliada de Trump, Giorgia Meloni, além de Bulgária, República Tcheca e Malta. Hungria e Eslováquia rejeitam o plano abertamente.

Apesar da oposição, a Bélgica concordou na semana passada com um passo técnico para congelar os ativos indefinidamente. Todavia, Kaja Kallas, chefe da política externa do bloco europeu, alertou que avançar sem o aval total belga seria arriscado, dado que a Euroclear, câmara de compensação onde os ativos estão, fica em Bruxelas.

Qualquer que seja o resultado da votação de quinta-feira, as autoridades europeias já se preparam para retaliações. "Esperamos um aumento da guerra híbrida a partir deste fim de semana", disse um alto oficial de segurança europeu. "Não estamos despreparados, mas não sabemos qual será a escala dos ataques."

Foto: Ben Stansall/AFP/Getty Images
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