O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, condenou veementemente a operação militar dos Estados Unidos que resultou na captura do líder venezuelano Nicolás Maduro, classificando o ato como uma "violação flagrante do direito internacional". Em uma dura reação que expõe o desconforto de Brasília com o expansionismo de Washington, Lula alertou que a ação cruzou uma "linha inaceitável" e representa um "precedente extremamente perigoso" para toda a comunidade internacional.
Segundo o mandatário brasileiro, atos dessa natureza constituem uma afronta grave à soberania da Venezuela e representam o primeiro passo para um mundo de "violência, caos e instabilidade". A posição do governo foi reforçada na segunda-feira durante uma reunião de emergência na ONU, onde o embaixador Sérgio França Danese repudiou o que chamou de "primeira agressão externa armada com tropas e bombardeios em um país vizinho na América do Sul", ressaltando a gravidade do evento ocorrer em uma nação com a qual o Brasil compartilha mais de 2.000 km de fronteira.
Para analistas políticos, o episódio coloca o Brasil em uma posição delicada. Dawisson Belém Lopes, professor da UFMG, descreve a incursão estadunidense como uma "ameaça existencial" ao bem-estar e à segurança dos brasileiros. Na visão do especialista, Brasília tentará resistir ao intervencionismo da Casa Branca, elevando o custo político para qualquer nova imposição na região, especialmente após Donald Trump ameaçar ações similares na Colômbia e em Cuba.
A relação bilateral já se encontrava deteriorada desde o retorno de Trump ao poder, marcado pela imposição de tarifas retaliatórias a produtos brasileiros após a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. A intervenção na Venezuela aprofunda esse distanciamento e gera temores de que a administração estadunidense possa tentar interferir nas eleições brasileiras de outubro deste ano.
Pivô para a China e o Brics
A consequência geopolítica mais imediata da ação estadunidense deve ser um fortalecimento dos laços entre Brasil e China. Especialistas apontam que a desconfiança em relação a Washington impulsiona o Palácio do Planato a buscar alternativas estratégicas. Para Cui Hongjian, da Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim, a postura agressiva dos Estados Undiso serve para estabilizar e aprofundar a relação sino-brasileira, criando um momento propício para que ambos os lados busquem maior cooperação e apoio mútuo.
Essa visão é reforçada pela convergência de narrativas, uma vez que a China também condenou a operação, acusando os EUA de atuar como uma "polícia internacional". Nesse cenário, a expectativa é que o Brasil utilize plataformas multilaterais, como o Brics, para fortalecer a unidade regional e contrapor a pressão vinda da Casa Branca. Jiang Tianjiao, da Universidade Fudan, avalia que, pelo menos no curto prazo, a confiança entre Brasil e EUA foi severamente danificada, o que naturalmente acelera a diversificação de parcerias do governo Lula rumo ao Oriente.
Apesar da retórica inflamada e da aproximação com Pequim, acadêmicos como Rafael Ioris, da Universidade de Denver, acreditam que uma ruptura total das relações diplomáticas com os Estados Unidos é improvável, dada a interdependência econômica histórica. O desafio da chancelaria brasileira agora será manter um equilíbrio delicado, sustentando o pragmatismo comercial enquanto blinda a América do Sul da instabilidade trazida pela nova doutrina de intervenção estadunidense.
