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Europa acelera plano de US$ 1 trilhão por independência militar dos EUA

Europa acelera plano de US$ 1 trilhão por independência militar dos EUA

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Continente vive maior ritmo de produção de armas em décadas para reduzir dependência estadunidense;

Reportagem de Victor Hugo

As recentes investidas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para anexar a Groenlândia reaviveram questionamentos entre os aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) quanto à capacidade da Europa de fabricar armas suficientes para lutar independentemente de Washington. Diante da possibilidade da Casa Branca redirecionar seu foco para a Ásia e América Latina, a indústria de defesa do continente, outrora estagnada, atingiu seu ritmo de produção mais acelerado em décadas, fabricando drones, tanques e munições em velocidade recorde para tentar romper a dependência da tecnologia estadunidense.

Analistas de defesa e legisladores concluem que a autonomia é possível, mas ainda não imediata. O custo para substituir os atuais equipamentos e pessoal estadunidense na Europa giraria em torno de US$ 1 trilhão, segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. O temor de que os EUA possam cortar o fornecimento de armas ou impedir seu uso devido a rusgas políticas, como as ocorridas sobre a Ucrânia e agora a Groenlândia, impulsionou um salto nos gastos militares. No ano passado, a Europa gastou cerca de US$ 560 bilhões em defesa, o dobro do registrado há uma década.

O esforço de rearmamento já apresenta resultados superiores aos dos Estados Unidos em setores específicos. A gigante alemã Rheinmetall, por exemplo, terá em breve capacidade para produzir 1,5 milhão de projéteis de artilharia de 155 mm por ano, volume superior ao de toda a indústria de defesa estadunidense combinada. Além disso, o continente é autossuficiente em veículos blindados e lidera o mercado global na construção de navios e submarinos. Startups como a alemã Twentyfour Industries exemplificam essa agilidade, passando da fabricação seminal à venda de centenas de drones em menos de um ano, impulsionadas por investidores dispostos a financiar o setor.

Apesar dos avanços, lacunas críticas de capacidade mantêm a Europa atrelada ao poderio estadunidense. O continente ainda depende majoritariamente do Pentágono ou de Israel para caças furtivos, mísseis de longo alcance, defesa aérea avançada e inteligência via satélite. Em Davos, o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, admitiu que a frota de caças de seu país não conseguiria operar a longo prazo sem as peças de reposição e atualizações de hardware fornecidas por Washington, evidenciando a fragilidade da autonomia atual.

A fragmentação da indústria europeia permanece como um obstáculo estrutural para a unificação da defesa. Roberto Cingolani, CEO da italiana Leonardo, alerta que a dispersão de investimentos, com cada nação buscando desenvolver seus próprios tanques e aeronaves, prejudica a eficiência do rearmamento. Enquanto projetos para mísseis de longo alcance e constelações de satélites independentes começam a sair do papel, estimativas indicam que a Europa está a pelo menos dez anos de distância de produzir seu próprio caça furtivo, mantendo o pacto de proteção estadunidense provido pela Otan indispensável no curto prazo.

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