O governo do premiê israelense Benjamin Netanyahu aprovou nesta semana 19 novos assentamentos em territórios da Palestina. O movimento desafia a linha vermelha traçada pelo plano de paz do presidente estadunidense Donald Trump, além de ignorar alertas da Alemanha. Sob as muralhas de pedra do Túmulo dos Patriarcas, em Hebron, a tensão define o compasso da vida na Cisjordânia. O local, reverenciado por judeus, muçulmanos e cristãos como o ponto de descanso de Abraão, tornou-se o epicentro de uma disputa que toca no cerne do futuro geopolítico da região. Enquanto diplomatas em Washington e Berlim debatem linhas em mapas, no terreno, a realidade de uma anexação de fato avança rapidamente.
Para Yishai Fleischer, colono israelense que frequenta o local sagrado em Hebron, a presença judaica ali não é negociável, mas uma questão de sobrevivência e identidade histórica de 3 mil anos. "O povo judeu está reassentando esta terra, este é o coração da nossa história, é o ADN de nossa nação", argumenta Fleischer. Para ele, qualquer oposição deve ser enfrentada com força militar e espiritual: "Os detratores terão que ir embora".
A poucos metros dali, a visão de Fleischer se traduz em confinamento para os palestinos. A casa do ativista Issa Amro, situada em uma colina com vista para o Túmulo, é cercada por grades altas. Ele afirma que a proteção é necessária contra ataques constantes de colonos, que variam de pedradas a bombas incendiárias.
"Sinto que vivo em uma jaula", desabafa Amro, de 45 anos. "Meu bairro está enjaulado, minha cidade está enjaulada e meu país está enjaulado." O ativista relata uma deterioração drástica na segurança desde outubro de 2023, acusando o exército de Israel de dar carta branca para a violência dos colonos. "Se você tem proteção, apoio e financiamento vindo do governo israelense para soldados e colonos fanáticos, isso significa que é terrorismo de Estado", denuncia.
LINHA VERMELHA
A expansão dos assentamentos é liderada por ministros como Bezalel Smotrich, da Fazenda, e Itamar Ben-Gvir, da Segurança Pública, ambos alvos de sanções internacionais por ações violentas. Smotrich celebrou a aprovação das novas unidades como "sionismo correto e moral", prometendo injetar vultuosas quantias de dinheiro no orçamento para consolidar a presença israelense. Segundo a legislação internacional, a ocupação dos territórios palestinos por Tel Aviv é ilegal.
A postura desafiadora coloca Israel em rota de colisão com seus principais aliados. O governo estadunidense, sob o comando de Donald Trump e do vice JD Vance, embora amplamente favorável aos israelenses, traçou o limite de que a anexação formal não será tolerada.
"A Cisjordânia não será anexada por Israel", declarou recentemente o vice-presidente Vance, classificando tentativas legislativas nesse sentido como "golpes políticos estúpidos". O próprio Trump já alertou que Israel perderia o apoio de Washington caso formalizasse a soberania sobre o território.
A pressão também vem da Europa. Em encontro recente com o chanceler alemão Friedrich Merz, Netanyahu ouviu alertas contra a anexação. Publicamente, o premiê israelense tentou acalmar os ânimos, afirmando que a anexação formal "não é algo para agora", embora tenha admitido que o tema será "eventualmente discutido". Netanyahu insiste que não há mudança no status quo, apenas o controle de segurança entre o Rio Jordão e o mar, território palestino antes da criação de Israel em 1948.
"A Cisjordânia não será anexada por Israel", declarou recentemente o vice-presidente Vance, classificando tentativas legislativas nesse sentido como "golpes políticos estúpidos". O próprio Trump já alertou que Israel perderia o apoio de Washington caso formalizasse a soberania sobre o território.
A pressão também vem da Europa. Em encontro recente com o chanceler alemão Friedrich Merz, Netanyahu ouviu alertas contra a anexação. Publicamente, o premiê israelense tentou acalmar os ânimos, afirmando que a anexação formal "não é algo para agora", embora tenha admitido que o tema será "eventualmente discutido". Netanyahu insiste que não há mudança no status quo, apenas o controle de segurança entre o Rio Jordão e o mar, território palestino antes da criação de Israel em 1948.
DE FATO
Apesar da retórica diplomática sobre evitar a "anexação formal", especialistas alertam que o processo já ocorreu na prática. Michael Sfard, um dos principais advogados de direitos humanos de Israel, argumenta que as intervenções externas, como as de Trump, ignoram a realidade no solo.
"Isso precisa ser reconhecido e confrontado: Israel anexou o território e o trata como seu território soberano", afirma Sfard. Ele aponta para a exploração de recursos naturais, o planejamento urbano de longo prazo e a transferência de populações como provas de que a ocupação deixou de ser temporária.
"Estamos perpetuando nossa dominação na Cisjordânia", conclui o advogado. "Para mim, isso é anexação, mesmo que não tenha sido declarada."



