O Kremlin acusou a Ucrânia de realizar um ataque massivo com drones contra uma das residências oficiais favoritas do presidente russo Vladimir Putin, conhecida como Dolgiye Borody (Barbas Longas), na região de Novgorod. A alegação russa, feita sem a apresentação de provas visuais ou de inteligência, surge, segundo analistas europeus, como justificativa para Moscou endurecer sua postura nas negociações de paz e ameaçar novos bombardeios contra edifícios governamentais em Kiev.
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O incidente, segundo a Rússia, envolveu a interceptação de 91 drones direcionados ao local, que é protegido por sofisticados sistemas de defesa aérea. No entanto, autoridades ucranianas, incluindo o presidente Volodymyr Zelensky, negaram veementemente qualquer envolvimento. O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andriy Sybiha, afirmou que a falta de evidências plausíveis por parte da Rússia é a prova de que o ataque não ocorreu.
Trump-Zelensky
Analistas internacionais apontam que a acusação russa ocorre estrategicamente um dia após uma reunião considerada "excelente" entre Donald Trump e Zelensky na Flórida. No encontro, Trump teria sinalizado garantias de segurança dos EUA para a Ucrânia, um ponto sensível para Moscou.
"Do ponto de vista de Putin, a última cúpula em Mar-a-Lago foi ruim. A Rússia não pode aceitar quaisquer garantias de segurança para a Ucrânia", avalia Slawomir Debski, professor de estratégia no Colégio da Europa. "O interesse de Moscou não é o compromisso, mas sim outro colapso nas conversas."
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A narrativa do ataque serve, portanto, para enfraquecer a posição de negociação da Ucrânia e azedar as relações entre Washington e Kiev. As negociações de paz evoluíram recentemente de um plano de 28 pontos, alinhado à visão russa, para um de 20 pontos que reflete melhor as preocupações ucranianas e europeias, desagradando o Kremlin.
Reação de Trump
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O presidente estadunidense Donald Trump afirmou estar "muito irritado" após receber a alegação dos ataques diretamente de Putin em um telefonema na segunda-feira (30). Questionado se Washington possuía evidências do ataque, Trump respondeu: "Você está dizendo que talvez o ataque não tenha acontecido — isso é possível também, eu acho, mas o presidente Putin me disse esta manhã que aconteceu". Até o momento, nenhuma imagem de satélite ou avaliação de inteligência independente confirmou a veracidade das alegações russas.
Impasse
O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, declarou que os alvos e o momento para ataques de retaliação já foram definidos, classificando a Ucrânia como promotora de "terrorismo de Estado". Moscou utiliza o episódio para recalibrar seus pontos de negociação com Trump, recusando-se a fazer concessões ou suavizar suas exigências maximalistas, que incluem a retirada total das tropas ucranianas da região de Donbas. Enquanto a Europa reage com cautela, aliados da Rússia, como China e Índia, pediram que Moscou evite intensificar a guerra e mantenha o foco nas negociações.
Foto: Reuters


