Após governo Trump prometer restaurar hegemonia na América Latina, Pequim contra-ataca com memorando visando expandir influência econômica e diplomática na região.
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A disputa entre Washington e Pequim por influência da América Latina entrou em uma nova e tensa fase. Menos de uma semana após o governo de Donald Trump prometer em sua estratégia de segurança nacional "restaurar a preeminência estadunidense no Hemisfério Ocidental", a China respondeu com um extenso documento de política externa reafirmando sua intenção de permanecer e expandir sua presença no continente dos Estados Unidos.
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O documento chinês, o primeiro focado na região em quase uma década, sinaliza um aprofundamento da rivalidade entre as duas superpotências. Enquanto os estadunidenses buscam negar espaço a "competidores estrangeiros", Pequim utiliza a retórica de solidariedade ao Sul Global. “A China sempre se solidarizou, em todos os momentos, com o Sul Global, incluindo a América Latina e o Caribe”, diz o memorando apontando para “mudança significativa está ocorrendo no equilíbrio internacional de poder”, um eufemismo diplomático usado pelo presidente da China, Xi Jinping, para sugerir o fim da supremacia global dos Estados Unidos.
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Segundo o Center for Strategic and International Studies (CSIS), a competição entre grandes potências na região "apenas começou". A estratégia chinesa foca em preencher vácuos deixados pelos estadunidense, posicionando-se como a principal alternativa econômica.
Atualmente, Pequim já substituiu Washington como o maior parceiro comercial de diversos países latino-americanos e conta com 24 signatários da América Latina da iniciativa de investimentos trilionários Nova Rota da Seda. A conquista já é salto impressionante comparado a nenhum antes de 2017. O foco chinês é pragmático com o financiamento de infraestrutura, extração de minerais críticos e energia.
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Em contrapartida, a Casa Branca aposta em reviver a imperialista Doutrina Monroe do século XIX com o "Corolário Trump", alertando os vizinhos sobre os "custos ocultos" do dinheiro chinês, como armadilhas de dívida e espionagem, ao mesmo tempo em que ameaça militarmente que se alinha com Pequim.
Intimidação vs Sedução
A Venezuela de Nicolás Maduro tornou-se um dos principais palcos desse embate. A China, maior credora de Caracas e principal cliente de seu petróleo, classificou o aumento da presença militar dos Estados Unidos ao redor do país como "bullying unilateral". Embora analistas não prevejam uma intervenção militar direta da China, o apoio diplomático e econômico ao governo venezuelano serve como um teste para a parceria estratégica entre as nações.
Já no Panamá, a disputa é pelo controle logístico global. Trump tem pressionado para reduzir a influência chinesa no istmo, o que levou o Panamá a anunciar sua saída da Nova Rota da Seda. A batalha agora se concentra nos bastidores portuários. Um acordo recente apoiado pela BlackRock para assumir portos no canal enfrenta pressão de Pequim para que o controle retorne à COSCO, gigante estatal de navegação chinesa.
Embora a ofensiva chinesa seja primariamente econômica, sinais militares acenderam o alerta no Pentágono. A televisão estatal da China exibiu recentemente simulações de jogos de guerra computorizados mostrando forças chinesas operando próximas a Cuba e ao México. O Departamento de Defesa estadunidense citou Cuba como o único local nas Américas no qual a armada de Xi pode ter considerado estabelecer uma base militar.
Outro objetivo central do novo documento chinês é isolar Taiwan. A América Latina abriga sete dos 12 governos que ainda reconhecem a ilha autogovernada com a única China. Pequim promete benefícios aos países que mudarem de lado, mas enfrenta resistência. Em Honduras, o candidato recém eleito apoiado por Trump, Nasry Asfura, sinalizou que pode restaurar laços com Taipé, revertendo a decisão de 2023.
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