Oposição denuncia fraude e "impossibilidade" estatística dos resultados.
Reportagem de Victor Hugo
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Quatro anos após liderar um golpe de Estado na Guiné, o coronel Mamady Doumbouya foi declarado vencedor das eleições presidenciais desta quarta-feira (31) com uma amplíssima margem. Segundo resultados provisórios divulgados pela agência controlada pelo governo, Doumbouya obteve 86% dos votos, em um pleito desenhado para legitimar seu regime militar perante a comunidade internacional e a população local.
A vitória expressiva, no entanto, é contestada pela oposição e observada com ceticismo por analistas. O processo eleitoral ocorreu após Doumbouya dissolver o órgão independente que fiscalizaria a votação e proibir a participação de seus principais rivais políticos, como o veterano opositor Cellou Dalein Diallo, forçado a ir ao exílio.
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O cenário nas urnas foi de domínio do militar ex-legionário francês de 41 anos. Seu concorrente mais próximo, Abdoulaye Yéro Baldé, obteve apenas 6% dos votos.Baldé, considerado o nome mais forte entre os oito candidatos permitidos na disputa, rejeitou os números e anunciou que mobilizará uma equipe jurídica para contestar o resultado nos tribunais. "A margem é realmente enorme. Não é a realidade. É impossível", declarou Baldé, acusando o governo de intimidar eleitores e fraudar a contagem.
Apesar das críticas sobre a lisura democrática, analistas apontam que Doumbouya mantém uma base real de apoio popular. Sua campanha focou na promessa de unidade nacional e prosperidade econômica, alavancada pelo setor de mineração. Sob seu comando, a Guiné se posicionou como um dos principais exportadores globais de bauxita. O militar destravou projetos antigos de exploração de minério de ferro a despeito do deslocamento de populações com os impactos ambientais.
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Para parte da população, a estabilidade é a maior conquista do coronel. Abdoulaye Keita, motorista de micro-ônibus na capital Conacri, celebrou a ausência de violência no dia da votação: "Isso prova que todos apoiam Mamadi Doumbouya. Ele é quem vai reconciliar os guineenses, garantir a soberania e tirar o país da pobreza."
Sahel
O resultado na Guiné reflete uma tendência recente em diversas nações africanas, onde eleições com margens de vitória desproporcionais levantam sérias questões sobre a legitimidade democrática. Agora, o desafio do Coronel será transformar os números das urnas e as promessas de campanha em empregos reais para a juventude do país, que aguarda os dividendos dos recursos minerais da nação.
Imagens: Agence France-Presse


