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Israel reconhece independência da Somalilândia, acirrando tensão na África

Israel reconhece independência da Somalilândia, acirrando tensão na África

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Reportagem de Victor Hugo

Em uma manobra que reconfigura o tabuleiro geopolítico do Oriente Médio e da África, Israel tornou-se o primeiro país do mundo a reconhecer formalmente a independência da Somalilândia. A decisão encerra um isolamento diplomático de 34 anos para a região separatista localizada no estratégico Chifre da África, mas desencadeou uma onda imediata de condenações por parte da Somália e de potências regionais.


Enquanto as ruas de Hargeisa, capital da Somalilândia, foram tomadas por celebrações populares, o governo da Somália, que considera a região parte de seu território, classificou o ato como uma violação de sua soberania. A tensão escalou rapidamente com críticas vindas do Egito, Turquia, Djibuti e outros membros da Liga Árabe e União Africana, que temem um "efeito dominó" de movimentos separatistas no continente.

MAR VERMELHO

Analistas apontam que o reconhecimento israelense não é apenas simbólico, mas atende a interesses de segurança cruciais a Tel Aviv. A Somalilândia, com uma população de 6 milhões de habitantes e tamanho similar ao da Nicarágua, está situada na costa do Golfo de Áden, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo para o transporte de petróleo.


Segundo o Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel, a aliança visa conter a influência do Irã e de seus proxies na região, especificamente os rebeldes Hutis do Iêmen, que operam no Mar Vermelho. A reação dos Hutis foi imediata, declarando que qualquer presença israelense na Somalilândia será tratada como "objetivo militar".

Além da segurança, há especulações, citadas por relatórios de imprensa não confirmados oficialmente por Israel, de que as negociações poderiam envolver discussões sobre o reasentamento de palestinos expulsos à força de Gaza. A Somalilândia nega ter relação com sua declaração de independência e que a Somália rejeita veementemente.




A Somalilândia declarou sua independência unilateralmente em 1991, após a queda do ditador somali Siad Barre, cujo regime foi responsável pelo bombardeio de Hargeisa e pelo massacre de milhares de civis da tribo Isaaq, ato classificado pela ONU como genocídio. Diferente da Somália, que mergulhou em décadas de guerra civil e instabilidade, a Somalilândia construiu um sistema funcional ao longo dos últimos 34 anos. O território possui:

  • Governo eleito e parlamento próprio;
  • Força policial e exército;
  • Moeda própria e emissão de passaportes;
  • Índices de segurança superiores aos vizinhos.

Apesar de funcionar como um Estado de fato, a falta de reconhecimento internacional impedia o acesso a créditos multilaterais e acordos comerciais formais, cenário que a aproximação com Israel promete alterar.


CRISE DIPLOMÁTICA

O movimento de Israel aprofunda uma crise que já estava em curso. Em janeiro de 2024, a Somalilândia já havia causado atrito com Mogadíscio, capital somali, ao firmar um acordo com a Etiópia, permitindo ao país vizinho que não tem saída para o mar o uso do porto de Berbera no estratégico Mar Vermelho.


Agora, com a entrada de Israel na equação, a região do Chifre da África torna-se um novo foco de tensão global, atraindo a atenção de potências que buscam controlar a segurança das rotas comerciais entre a Ásia e a Europa.

Imagens: Pexels/Wikipédia
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